Veja como vivem os jogadores brasileiros na Arábia Saudita
Apesar da cultura islâmica, atletas se isolam em Compounds e citam “vida normal”. Calor e religião interferem nos horários, já fanatismo de torcedores rende bons causos
As transferências de Cristiano Ronaldo, Neymar, Benzema e outros importantes nomes de times europeus para clubes da Arábia Saudita colocou os holofotes do mundo do futebol no país asiático. Com predominância da religião islâmica, o país tem tradições, costumes e restrições diferentes da maior parte do planeta.
– A Arábia Saudita não tem constituição. Tem o Alcorão, o livro sagrado islâmico, como uma lógica mínima para como as regras fluem e algumas leis complementares. Tem uma série de normativas que proíbem, por exemplo, o consumo de bebidas alcoólicas e relações entre pessoas do mesmo sexo, que podem ser punidas em diferentes escalas, inclusive com execução – explica Fernando Brancoli, Professor de Geopolítica do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ.
O Islã é praticado no país na versão Wahhab, que Fernando Brancoli explica ser uma forma muito conservadora. Muitas restrições são impostas, principalmente às mulheres, sendo exigidas “vestes modestas”, variando de acordo com os locais. Apesar disso, o professor afirma que uma espécie de “bolha dos estrangeiros” foi formada há alguns anos na Arábia Saudita.
Nela, estão incluídos os jogadores de futebol, assim como empresários e executivos de diversos ramos que vão morar no país por motivos profissionais. Ídolo do Al-Hilal e destaque do Botafogo no Brasileirão, o meia Eduardo atuou no clube mais popular da Arábia Saudita entre 2015 e 2020 e revela ao ge como foi sua experiência vivendo com a família em um Compound.
– No início foi um pouco difícil. Quando cheguei lá, tinham algumas restrições muito diferentes do que é hoje. Foi um choque. Homem de branco, mulher de roupa preta. Mas não tive tanta dificuldade. Me adaptei muito rápido e foi uma experiência muito boa. Se eu tivesse a oportunidade, teria ido antes. Minha esposa adorou. Ela até fala que sente saudade da vida lá – conta Eduardo.
+ Ídolo do Al-Hilal, Eduardo dá recado a Neymar: “Vai se amarrar”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2023/f/A/SfYRdjSA6PSLHcWfsFMQ/eduardo.png)
Eduardo, meia do Botafogo, com vestimentas árabes nos tempos de Al-Hilal; meia cita “vida normal” no país islâmico — Foto: Reprodução
Os Compounds na Arábia Saudita
A “bolha dos estrangeiros” citada pelo professor Fernando Brancoli não existe apenas figurativamente. Na prática, ela é concreta e tem o nome de Compound, que é uma espécie de condomínio fechado muito comum nas principais cidades sauditas e habitados por imigrantes.
O volante Bruno Henrique, do Internacional, que chegou ao Al-Ittihad em 2020 e ficou até junho deste ano, destaca a vida “normal” e “segura” dos estrangeiros na Arábia Saudita.
– As notícias que chegam aqui são distorcidas e longe da realidade de lá. Fui muito bem tratado por todos os árabes. Gostei muito e tive vida normal. Eu morava em um Compound, que tinha bastante brasileiros e estrangeiros. Vários jogadores. Ali a vida é normal. Tem academia, restaurante, piscina… a vida ali é muito tranquila. Muito seguro, raramente se ouve falar de insegurança. Você conhece pessoas do mundo inteiro. E é bacana trocar essa experiência com o pessoal – afirma Bruno Henrique.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2023/A/U/JEWDguRfqlq07sHxcPMQ/compound.jpg)
Compounds são grandes condomínios fechados e com “vida normal” para estrangeiros na Arábia Saudita — Foto: Reprodução
Apesar de serem associados a condomínios, os Compounds da Arábia Saudita são distantes do que se vê nos grandes condomínios no Brasil. O brasileiro Roberto Oliveira, preparador físico do Al-Nassr, de Cristiano Ronaldo, detalha a diversificação dos Compounds.
– Moro em um Coumpound que é muito bom, só vivem estrangeiros. No meu, a grande maioria é de americanos que estão a trabalho em base militar. Tem shopping, escola, academia, boliche, cinema, restaurantes, barbearia. Não existe nada parecido no brasil… Moro na capital Riade. Tem vários Compounds espalhados pela cidade, cada um com suas características – comenta o membro da comissão técnica de Luis Castro.
Roberto Oliveira ressalta, no entanto, que não são todos os jogadores que vivem em Compounds. Alguns nomes, como Cristiano Ronaldo e Anderson Talisca, do Al-Nassr, optam por não ter a estrutura dos “condomínios” sauditas para viverem em casas que seriam “inacreditáveis no Brasil”, segundo o preparador.
Parceiros de ataque no Al-Nassr, Anderson Talisca e Cristiano Ronaldo dispensam a estrutura dos “Compounds” em Riade, capital da Arábia Saudita — Foto: Al Nassr
Paixão dos sauditas pelo futebol
Apesar de não ser um país tradicional historicamente no futebol, o povo da Arábia Saudita vive intensamente o esporte mais popular do planeta. O brasileiro Igor Coronado, que atua no Al-Ittihad desde 2021, mas antes passou três anos no futebol dos Emirados Árabes, comenta a diferença.
– Quando vim para a Arábia, foi mais um choque. Mais uma cultura diferente. Porém, me surpreendeu demais. Sempre tive o sonho de jogar com estádio lotado e, quando vi essa torcida, me apaixonei. Não tive dúvida que era o meu momento. A gente treina todo dia e tem pessoas ali fora esperando. Já nos seguiram do centro de treinamento até em casa. A molecada corre atrás do carro depois do treino – conta o camisa 10 do Al-Ittihad.
O meia Eduardo, conta que a paixão dos torcedores é tão grande, qua já chegou a ser perseguido de maneira, no mínimo, inusitada, nos tempos de Al-Hilal.
– O pessoal sempre me seguia até em casa depois do treino. Uma vez saí rápido e parei no sinal. Um motorista veio e deu uma encostadinha no meu carro. Na época eu estava com uma Porsche. Já pensei que tinha arrebentado o carro – conta o jogador aos risos.
“Eu nem falava árabe na época ainda… abaixei o vidro do carro e o cara veio pedir perdão e dizer que só queria uma foto. Ele disse que bater no meu carro era a única forma de me parar”
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2023/0/0/ps0p9mTNCJ7PTIu7Acag/captura-de-tela-2023-08-19-132250.png)
Apaixonados, mais de 67 mil pessoas receberam Neymar na apresentação ao Al-Hilal — Foto: Divulgação/Al-Hilal
Calor e religião mudam horários de treinos
Um dos baques que os estrangeiros que desembarcam na Arábia Saudita precisam lidar é o forte calor. Em 2020 os termômetros sauditas chegaram a marcar 51ºC. Entre julho e setembro, o país tem um verão que costuma assustar imigrantes e foi o caso do meia Eduardo, que chegou a se queixar com um então companheiro de Al-Hilal.
– Estava muito calor na época que cheguei ao Al-Hilal. Eu falei para o zagueiro Digão, que jogava comigo: ‘Cara, é esse calor o ano inteiro? Se for assim, não vou aguentar não”. Ele me explicou que não é sempre assim. São dois ou três meses e depois abaixa e tem frio – lembrou o destaque do Botafogo no Brasileirão 2023.
O forte calor interfere no cronograma dos times. Os treinamentos, por exemplo, só começam após as 18h. E as equipes precisam respeitar os horários do Salat, oração que os muçulmanos realizam todos os dias, como conta Fabio Tepedino, preparador de goleiros do Al Faiha.
– Devido às altas temperaturas, acabamos praticamente perdendo grande parte do dia em casa, pois não tem como sair com os termômetros batendo 44/45ºC. Nossos treinamentos sempre começando após as 18h (horário saudita). No meu clube, por exemplo, a apresentação acontece às 17h45, depois a oração e após a oração iniciamos as atividades – detalha Fabio Tepedino.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2022/Y/T/8UHm4hTTyAakaR6gnUEw/2022-11-22t131537z-124033202-up1eibm10txlb-rtrmadp-3-soccer-worldcup-arg-sau-fans.jpg)
Torcedor da Arábia Saudita em momento de oração durante jogo contra a Argentina — Foto: Ahmed Yosri/Reuters
O preparador de goleiros, que já trabalhou no Vasco, chegou à Arábia Saudita pela primeira vez em 2007, época em que a cultura local era ainda mais restritiva. Ele destaca a mudança do país desde então e ressalta a importância de “entender a cultura” local para viver de maneira tranquila.
– Quando cheguei, a adaptação foi difícil em relação ao calor e às rotinas noturnas. Estar atento aos horários das orações, pois grande parte do comércio fecha por cerca de 25 a 30 minutos. Cuidado com as bermudas e shorts acima do joelho, pois dependendo do local que você for, pode ser barrado. Porém, após entender melhor a cultura e as regras existentes, tudo fica tranquilo – afirma Tepedino.
Presentes do sheiks?!
Reza a lenda que no “mundo árabe”, os jogadores são presenteados de maneiras inusitadas após feitos importantes. Além dos tradicionais “bichos”, valores pagos aos elencos como premiação por bons resultados, há quem diga que os sheiks árabes ofertam carros, relógios, joias e até animais, como leões. Eduardo, ídolo do Al-Hilal, teve experiências do tipo.
– Já ganhei muita coisa. No primeiro jogo, o príncipe disse antes: ‘Faz um golzinho que eu vou dar 10 mil dólares’. Aí fui, fiz o gol e fui direto nele. Ele disse que ia me dar 100 mil, já que foi o gol do título. O pessoal antes dos clássicos já falava que ia dar um carro. Poderíamos escolher o relógio que queríamos ganhar. Em outros clubes, você faz o gol e não faz mais que sua obrigação. Lá sempre o pessoal dava esses presentes, tipo leão, carro, relógio – afirma.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2022/8/Z/PkoS34TJOw9DATOzHNLA/eduardo.jpg)
Eduardo, do Botafogo, com leão que ganhou na Arábia Saudita — Foto: Arquivo Pessoal
Recentemente, o volante Fabinho, do Al-Ittihad, recebeu um relógio de um jornalista pela boa atuação na estreia pela equipe. Companheiro do ex-jogador do Liverpool, Igor Coronado revela não ter tido a mesma sorte nestes cinco anos de “mundo árabe”.
– Essas coisas acontecem só para os guerreiros das antigas. Eu estou há cinco anos aí, ganhei quatro títulos, e se não tiver um bônus bem amarradinho no contrato, não leva nada não (risos). Pode aparecer alguém que dê um presente, mas carro ou leão, isso aí nunca me apareceu não – conta o meio-campista.
Sobre o suposto Rolex recebido pelo colega de time, Igor Coronado revela que não se tratava de um relógio luxuoso, como todos imaginavam.
– Divulgaram bastante um relógio que o Fabinho ganhou de um jornalista depois do primeiro jogo dele. Estavam falando que era um relógio de 200 mil reais, mas não é nada disso não. É um relógio bem simples que o cara deu para ele – conta o atleta do Al-Ittihad.
Com o forte investimento do governo saudita no futebol, atraindo atletas conhecidos internacionalmente, a tendência é que cada vez mais estrangeiros atuem no país. Apesar da necessidade de respeitar a cultura local, os atletas de outras nacionalidades conseguem levar suas vidas normalmente e as rigorosas regras locais são flexibilizadas nestes casos.
– O país está em um processo de se abrir para o mundo. Se apresentar de maneira mais moderna. Nas vezes que fui até a Arábia Saudita vi que as pessoas têm bebidas alcoólicas dentro de casa… elas compram de maneira ilegal. Aplicativos de relacionamentos homossexuais funcionam no país. É um país ainda muito conservador e restrito, mas os estrangeiros, principalmente esses famosos, ganham uma certa autonomia, dentro deste contexto – conclui o professor Fernando Brancoli.
Fonte Por Caíque Andrade —
Veja como vivem os jogadores brasileiros na Arábia Saudita | futebol saudita | ge (globo.com)

