Site desenvolvido por Ligado na Net :

DestaquesPolitica

Como Lula e Flávio ‘dizem sem dizer’ na corrida eleitoral?

Às vésperas das eleições, a disputa não se dá apenas no campo das propostas explícitas, mas também no terreno mais discreto das entrelinhas

Reprodução/FlickrFlávio Bolsonaro e Lula

Flávio Bolsonaro e Lula

Lula e Flávio lideram as pesquisas. Sem campanha oficial, seus posicionamentos públicos passam a assumir, pouco a pouco, tonalidade eleitoral. Nas entrelinhas, em comentários aparentemente circunstanciais, surgem sinais que sugerem mais do que afirmam. Como se constrói esse discurso que diz sem dizer?

Você já reparou como certos temas começam a se repetir com mais frequência no debate público muito antes do período oficial de campanha?

Momento da decisão

Muitos acreditam que a decisão do voto será tomada apenas no momento da eleição. No entanto, a formação das percepções costuma ocorrer bem antes, de maneira gradual, quase imperceptível. Não por meio de discursos explícitos, mas por sugestões, enquadramentos e escolhas linguísticas que orientam a interpretação dos fatos.

A poucos meses das eleições, mais importante do que ouvir apenas o que se diz é perceber o que se sugere. Raramente as mensagens políticas chegam em frases diretas. Muitas vezes aparecem nas entrelinhas, disfarçadas em comentários sobre fatos da atualidade, em análises aparentemente neutras e em discussões que, à primeira vista, nada teriam de eleitorais. Comentários sobre economia, instituições, riscos e investigações surgem como análises do presente, mas podem também exercer influência silenciosa sobre as escolhas futuras.

Estratégias intuitivas

Seria exagero imaginar que pré-candidatos se comportem como estrategistas frios, antecipando cada movimento como mestres de xadrez. A realidade tende a ser mais sutil. Com a experiência acumulada em anos de disputas,
desenvolvem uma sensibilidade quase instintiva para identificar oportunidades discursivas. Nem sempre sabem explicar por que enfatizam determinados temas ou recorrem a certos enfoques, mas intuem a direção que pode
favorecer a própria imagem.

Nesse período preliminar, a cautela na linguagem se torna regra. Como ainda não podem, ou não desejam, expor posições de forma frontal, recorrem a formulações indiretas. Não afirmam categoricamente, insinuam. Não acusam
abertamente, sugerem interpretações. Assim, vão construindo, pouco a pouco, um ambiente simbólico que antecede o embate eleitoral propriamente dito.

Premissas subentendidas

É nesse contexto que ganham destaque palavras recorrentes no debate público: risco, perigo, alerta, investigação, suspeita. Isoladamente, são termos comuns, até inevitáveis na descrição dos acontecimentos. Contudo, quando
repetidos com frequência e associados à leitura dos fatos econômicos, políticos e institucionais, passam a moldar a percepção coletiva. Não descrevem apenas a realidade; contribuem para enquadrá-la.

Nada disso é novidade do ponto de vista da retórica. Os clássicos já haviam identificado a força das sugestões implícitas. Cícero, ao tratar da arte de persuadir, recomenda que, em temas sensíveis, o orador evite o ataque direto
e conduza a audiência por meio de sugestões graduais, criando predisposição antes mesmo de apresentar a tese principal.

Jovem Pan > Opinião Jovem Pan > Comentaristas > Reinaldo Polito > Como Lula e Flávio ‘dizem sem dizer’ na corrida eleitoral?

Como Lula e Flávio ‘dizem sem dizer’ na corrida eleitoral?

Às vésperas das eleições, a disputa não se dá apenas no campo das propostas explícitas, mas também no terreno mais discreto das entrelinhas

  • Por Reinaldo Polito
  • 25/02/2026 12h18 – Atualizado em 25/02/2026 12h24
BlueSky

Reprodução/FlickrFlávio Bolsonaro e Lula

Flávio Bolsonaro e Lula

Lula e Flávio lideram as pesquisas. Sem campanha oficial, seus posicionamentos públicos passam a assumir, pouco a pouco, tonalidade eleitoral. Nas entrelinhas, em comentários aparentemente circunstanciais, surgem sinais que sugerem mais do que afirmam. Como se constrói esse discurso que diz sem dizer?

Jovem Pan

Siga a Jovem Pan no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

https://4b5b9dfe6cd1d54224cc93711d22dcc1.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-45/html/container.html

Você já reparou como certos temas começam a se repetir com mais frequência no debate público muito antes do período oficial de campanha?

Momento da decisão

Muitos acreditam que a decisão do voto será tomada apenas no momento da eleição. No entanto, a formação das percepções costuma ocorrer bem antes, de maneira gradual, quase imperceptível. Não por meio de discursos explícitos, mas por sugestões, enquadramentos e escolhas linguísticas que orientam a interpretação dos fatos.

A poucos meses das eleições, mais importante do que ouvir apenas o que se diz é perceber o que se sugere. Raramente as mensagens políticas chegam em frases diretas. Muitas vezes aparecem nas entrelinhas, disfarçadas em comentários sobre fatos da atualidade, em análises aparentemente neutras e em discussões que, à primeira vista, nada teriam de eleitorais. Comentários sobre economia, instituições, riscos e investigações surgem como análises do presente, mas podem também exercer influência silenciosa sobre as escolhas futuras.

https://4b5b9dfe6cd1d54224cc93711d22dcc1.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-45/html/container.html

Estratégias intuitivas

Seria exagero imaginar que pré-candidatos se comportem como estrategistas frios, antecipando cada movimento como mestres de xadrez. A realidade tende a ser mais sutil. Com a experiência acumulada em anos de disputas,
desenvolvem uma sensibilidade quase instintiva para identificar oportunidades discursivas. Nem sempre sabem explicar por que enfatizam determinados temas ou recorrem a certos enfoques, mas intuem a direção que pode
favorecer a própria imagem.

Nesse período preliminar, a cautela na linguagem se torna regra. Como ainda não podem, ou não desejam, expor posições de forma frontal, recorrem a formulações indiretas. Não afirmam categoricamente, insinuam. Não acusam
abertamente, sugerem interpretações. Assim, vão construindo, pouco a pouco, um ambiente simbólico que antecede o embate eleitoral propriamente dito.

Premissas subentendidas

É nesse contexto que ganham destaque palavras recorrentes no debate público: risco, perigo, alerta, investigação, suspeita. Isoladamente, são termos comuns, até inevitáveis na descrição dos acontecimentos. Contudo, quando
repetidos com frequência e associados à leitura dos fatos econômicos, políticos e institucionais, passam a moldar a percepção coletiva. Não descrevem apenas a realidade; contribuem para enquadrá-la.

Nada disso é novidade do ponto de vista da retórica. Os clássicos já haviam identificado a força das sugestões implícitas. Cícero, ao tratar da arte de persuadir, recomenda que, em temas sensíveis, o orador evite o ataque direto
e conduza a audiência por meio de sugestões graduais, criando predisposição antes mesmo de apresentar a tese principal.

A escolha de palavras aparentemente neutras pode orientar o pensamento sem que o público perceba
esse direcionamento.

Oratória de Churchill

Quintiliano, nas Instituições Oratórias, aprofunda essa lógica ao demonstrar que os pressupostos funcionam como guias silenciosos do raciocínio. Para ele, muitas vezes é mais eficaz insinuar do que declarar. Frases afirmativas podem carregar premissas invisíveis.

Quando se assegura, por exemplo, que é preciso restaurar a normalidade em determinado setor, subentende-se que essa normalidade estaria comprometida, ainda que isso não seja dito de forma direta.

A história política oferece exemplos claros desse uso sutil da linguagem. Winston Churchill, durante a Segunda Guerra, evitava descrever a situação apenas em termos técnicos ou militares. Ao empregar expressões como “hora
decisiva” e “prova histórica”, não apenas informava, mas preparava psicologicamente a população para sacrifícios futuros. As palavras não anunciavam todas as consequências de modo explícito, mas criavam, nas
entrelinhas, a premissa de que tempos difíceis exigiriam resistência coletiva.

A intuição como guia

Ao longo de décadas observando e treinando candidatos para os mais diversos cargos, é possível notar um fenômeno recorrente. Mesmo sem domínio técnico da lógica argumentativa, muitos constroem, por intuição, premissas que
conduzem naturalmente às conclusões que desejam ver aceitas pelo eleitorado. Não explicam tudo; sugerem o suficiente para que o próprio público complete o raciocínio.

Por isso, as discussões que hoje ocupam o espaço público, sejam econômicas, institucionais ou administrativas, não devem ser analisadas apenas pelo conteúdo imediato. Podem também funcionar como bases preparatórias do
debate futuro. Os fatos são concretos, mas a forma como são linguisticamente enquadrados contribui para sedimentar percepções que reaparecerão com mais intensidade durante a campanha.

Às vésperas das eleições, a disputa entre Lula e Flávio não se dá apenas no campo das propostas explícitas, mas também no terreno mais discreto das entrelinhas. Quem observa apenas o que é dito de forma direta perde parte
essencial do processo persuasivo.

Em política, como já sabiam os clássicos, muitas vezes a conclusão mais forte não é a que se declara, mas a que se
deixa implícita para que o próprio eleitor a formule.

Fonte Como Lula e Flávio ‘dizem sem dizer’ na corrida eleitoral? | Jovem Pan