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O fim do paradoxo africano: novo estudo revela que houve subnotificação de mortes por Covid-19 no continente 

Trabalho conduzido em necrotério na Zâmbia mostra que a realidade é completamente diferente da exibida oficialmente Bernardo Yoneshigue 18/04/2022 – 04:30

RIO — Os números oficiais da Covid-19 na África, considerados significativamente baixos em comparação com outras regiões do planeta, sempre foram, desde o início da pandemia, um dos maiores mistérios para os médicos. Pelas condições precárias do sistema de saúde em grande parte das nações do continente, esperava-se um efeito devastador. Mas isso não aconteceu. Inúmeras teorias começaram então a buscar explicações para a doença ter poupado o continente. Pois agora, um novo estudo conduzido em um necrotério na cidade de Lusaca, na Zâmbia, provocou uma reviravolta nesse cenário.

Entre as hipóteses levantadas até hoje, estão a pouca idade da maioria da população e temperaturas predominantemente quentes. Mas o trabalho aponta para outro caminho: uma gigantesca subnotificação.

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Cientistas da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, e da Universidade da Zâmbia divulgaram resultados que mostram uma realidade bem diferente daquela retratada pelos registros oficiais. Conduzida no necrotério do Hospital Universitário de Lusaca — que recebe cerca de 80% dos mortos da capital zambiana —, a pesquisa identificou que nada mais, nada menos que 32% dos testes feitos em cadáveres entre junho de 2020 e junho de 2021 testaram positivo para a Covid-19. Destes, menos de 10% haviam recebido o diagnóstico enquanto vivos — um critério que as autoridades de saúde locais exigem para contá-los como parte do número oficial.

Em entrevista ao GLOBO, o líder do estudo, Christopher Gill, especialista em doenças infecciosas e professor do departamento de Saúde Global da Universidade de Boston, afirmou que os dados revelam uma face devastadora da doença que deve ser realidade não apenas na Zâmbia, como no resto do continente.

— Ninguém realizou esse tipo de vigilância fora de Lusaca, porém seria muito estranho imaginar que este caso seja uma exceção. Por que o que vimos seria único quando as condições que tornaram a Covid tão prevalente existem também em Nairóbi, Lagos, Cairo e outros lugares da África? — questiona o especialista.

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Falta de dados

Estudos desse tipo no continente são raros. O modelo envolve uma série de recursos, tanto humanos como de estrutura, e leva tempo para ser montado. Porém, a equipe de Gill já trabalhava no necrotério em Lusaca desde 2017, quando começou a estudar o impacto do vírus sincicial respiratório (VSR) e da Bordetella pertussis, um dos agentes causadores da tosse convulsa, na mortalidade infantil. Com a chegada da pandemia, ele conta que foi relativamente simples mudar o foco do projeto para a Covid-19 e ampliar para todas as faixas etárias.

— Meu palpite é que muito poucos locais na África tiveram a sorte de ter todos esses ingredientes já posicionados quando a pandemia chegou. E o efeito da pandemia foi também a redução da viabilidade de recursos para os países mais pobres, porque as nações mais ricas estavam mais inclinadas a se concentrarem em si mesmas. A realidade é que, no momento em que África precisava desesperadamente de ajuda, em termos de vigilância de doenças, os recursos para isso foram menores — explica Gill.

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Para se ter uma ideia, enquanto a Europa acumula 2.390 mortes por milhão de habitantes, esse índice na África é de apenas 184 óbitos — praticamente dez vezes menor. Desde 1º de março, a região passou a ter também a menor mortalidade do planeta, superando a Oceania que, com países como Nova Zelândia e Austrália, ficou conhecida como um exemplo no combate à doença.

O novo trabalho é, na verdade, a continuação de outro estudo publicado em fevereiro de 2021 na revista científica British Medical Journal, que ocorreu entre junho e outubro de 2020. O resultado da análise inicial, de 372 mortos, constatou uma positividade de 19%, com apenas seis dos 70 óbitos com Covid-19 diagnosticados em vida. A equipe decidiu então ampliar o tempo e o número de casos.

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Assim, os cientistas analisaram 1.118 indivíduos que chegaram ao necrotério entre junho de 2020 e junho de 2021, e descobriram que a taxa geral de testes positivos foi de 32%. Esse índice foi ainda maior durante o pico da onda provocada pela variante Beta no país, em janeiro de 2021, quando chegou a 91,7%. Já no período de maior transmissão pela variante Delta, em junho do mesmo ano, a positividade foi de 83,8%.

Os pesquisadores destacaram que as mortes aconteceram em todas as idades, com cerca de 80% sendo em populações com menos de 60 anos. Além disso, concluíram que aproximadamente 80% dos óbitos foram em comunidades em que a testagem para a doença estava indisponível — o que leva à ausência nos registros oficiais.

 — Nós temos a clareza que a subnotificação é um problema real, porque a notificação está relacionada aos serviços de saúde. A gente tem uma grande parte da população dos nossos países que não consegue acessar esses serviços, pela distância e condições de deslocamento, e acaba falecendo em casa, mesmo querendo acessá-los. São casos que não são notificados — explica o epidemiologista da Guiné-Bissau Tomé Cá, colaborador do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz e membro da Organização Oeste Africana de Saúde.

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Ele ressalta ainda que a subnotificação não é um problema exclusivo da Covid-19, sendo algo que acontece inclusive com a malária, uma das principais causas de morte no continente mesmo em tempos de pandemia. Isso porque o monitoramento demanda infraestruturas muitas vezes ausentes na África.

— Quando a pandemia começou, não eram muitos serviços de saúde que tinham capacidade de fazer o diagnóstico. Foi preciso um trabalho enorme de formação das pessoas, de acesso aos testes, de treinamento e assistência nos lugares, para permitir que os testes fossem feitos — diz o epidemiologista.

Segundo Christopher Gill, da Universidade de Boston, a equipe de Lusaca retomou o projeto de vigilância em janeiro deste ano e continuará atuando no necrotério por pelo menos mais um ano.

— Toda a dinâmica da pandemia mudou significativamente com a Ômicron, então não tenho ideia do que encontraremos daqui para frente. Mas estamos lá continuando a fazer o trabalho — afirma.

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Fonte: Bernardo Yoneshigue

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