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Dia do alívio? Após 27 anos, Castor espera deixar de ser lembrado por gol contra para o Corinthians

Hoje funcionário da Polícia Civil do Pará, ex-jogador relembra episódio na Copa do Brasil de 1996 e vê com esperança novo encontro entre Remo e Timão: “Vão esquecer um pouco de mim”

Quando o sorteio da Copa do Brasil definiu que Remo e Corinthians voltariam a se enfrentar depois de 27 anos, o ex-atacante Castor logo imaginou que seu telefone iria tocar. Dito e feito. Não demorou muito tempo para surgirem os primeiros convites para participações em programas de rádio e TV, pedidos de entrevista e outras consultas relacionadas ao último jogo entre paraenses e paulistas.

As lembranças daquele 9 de abril de 1996 não são agradáveis para Castor, mas ele não se importa em revivê-las. Com naturalidade, o ex-jogador conta como foi marcar, nos acréscimos, o famoso gol contra que deu o empate em 1 a 1 e a classificação às quartas de final para o estrelado Corinthians de Marcelinho Carioca, Edmundo e companhia. No duelo de ida, em Sorocaba, as equipes tinham ficado no 0 a 0, e o Timão levou a melhor pelo gol fora de casa.

Para Castor, a reedição do confronto entre Remo e Timão, às 21h30 desta quarta-feira, pela partida de ida da terceira fase da Copa do Brasil, não é encarada como o ressurgimento de um fantasma, mas sim a possibilidade de deixá-lo para trás. Quase três décadas depois da partida que mudou a vida dele, pode ter chegado o dia do alívio.

– Independentemente do que aconteça, vai ser uma nova história. Vai acontecer alguma coisa, o Remo vai ganhar ou vai perder, mas vão esquecer um pouco de mim. Será uma nova história, outra resenha. Vai virar a página – afirmou Castor.

Hoje com 50 anos, o ex-atacante trabalha na Polícia Civil de Belém do Pará há nove anos. Ele é responsável por controlar e organizar o fluxo de viaturas no pátio da corporação. Foi em seu local de expediente, no horário de almoço, que Castor recebeu a reportagem do ge para uma conversa.

Ex-jogador Castor trabalha hoje na Polícia Civil do Pará — Foto: Bruno Cassucci

Ex-jogador Castor trabalha hoje na Polícia Civil do Pará — Foto: Bruno Cassucci

Se hoje o famoso gol contra não é mais tabu, no passado ele já incomodou seu autor. Castor conta que recebeu o apoio de companheiros e dirigentes do Remo após a falha, mas não conseguiu escapar de comentários maldosos e críticas de torcedores.

– Eu jogava três partidas bem, ia uma mal e já voltava aquela história. Tinha que me superar ao máximo, não errar nada, senão qualquer coisa voltava aquela conversa. Não me xingavam nem nada, mas qualquer falha que eu cometia já falavam do gol contra – recordou.

Em suas palavras, Castor quis “respirar” e mudar de ares. Se antes do jogo contra o Corinthians choviam propostas, como as de Grêmio, São Paulo e até do futebol francês, depois do gol contra as ofertas rarearam. Ao final da temporada 1996, a melhor oportunidade que surgiu foi para atravessar o mundo e jogar no futebol sul-coreano.

Jornal de 1996 noticia a transferência de Castor para a Coreia do Sul — Foto: Reprodução

Jornal de 1996 noticia a transferência de Castor para a Coreia do Sul — Foto: Reprodução

Porém, sem saber falar o idioma local, nem mesmo o inglês, Castor rapidamente viu seus planos frustrados. O intérprete que o acompanharia abandonou o trabalho logo nos primeiros dias, após um problema familiar, e o jogador se viu sozinho.

– Eu tinha medo até de sair do quarto do hotel e me perder, por não saber me comunicar. Aos poucos, fui ficando triste, depressivo. Até para voltar para o Brasil foi difícil. Eu mostrava a bandeira do Brasil e a foto do avião. Passei umas duas semanas na Coreia e logo voltei, nem cheguei a jogar – contou.

De volta para casa, Castor passou a rodar por clubes de pequeno porte. Foram mais de uma dezena, entre Tuna Luso, Macapá, Camaçari, Iraty e vários outros.

Castor nos tempos em que defendia o Remo — Foto: Arquivo Pessoal

Castor nos tempos em que defendia o Remo — Foto: Arquivo Pessoal

Com a sensação de que a carreira poderia ter decolado mais, Castor decidiu se aposentar aos 35 anos.

– Essa é minha tristeza, não ter vingado num patamar mais alto no futebol.

Depois de pendurar as chuteiras, ele trabalhou como vendedor de diferentes produtos: trigo, ração para pet, papel para gráfica e gás de cozinha.

Hoje, na Polícia, com frequência ele é reconhecido como ex-jogador. Segundo ele, os mais velhos o tratam com mais consideração:

– Quem tem 25, 30 anos só sabe do gol contra, não lembram da história. Direto esse assunto do gol contra surge. Eu levo na boa, tenho a consciência limpa, quis ajudar o Remo, nem era para estar ali na área, a orientação era ficar mais para frente. Mas, na pressão do Corinthians, acabei voltando e fui infeliz.

Anos após encerrar a carreira, o ex-jogador foi homenageado pelo Remo e reconhecido por sua trajetória no clube. O gol contra dificilmente será esquecido, mas Castor sonha que o tempo trate de preservar também os outros feitos dele.

– Me rotularam pelo erro contra o Corinthians, mas não lembram das minhas realizações pelo clube. Fui um dos jogadores que fez parte da história do Remo! Defendi o clube durante o tabu sobre o Paysandu, ganhei dois títulos paraenses, fui vice-artilheiro do Paraense e um dos artilheiros do Remo na Série B de 1995 – afirmou o ex-atacante, que arremata:

– Eu sempre lidei sem problemas com essa situação do gol contra, não podia parar minha vida. Só fico triste pelo Remo, que poderia ganhar um bom dinheiro, e pela minha carreira, que acabou prejudicada.

Fonte Por Bruno Cassucci 

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