Vacinas para varíola símia
As semelhanças entre a situação que emergiu em 2020 e a atual são superficiais. Covid-19 é uma doença altamente contagiosa
Por Natalia Pasternak
08/08/2022 04h31 Atualizado 08/08/2022
O mundo aguardou ansiosamente pelas vacinas de Covid19, que chegaram no final de 2020, após desenvolvimento e testes clínicos serem feitos em tempo recorde e com financiamento inédito. O governo brasileiro foi merecidamente criticado pela falta de planejamento e demora em fechar acordos com os produtores dos imunizantes.
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Diante do espalhamento global de uma nova doença infecciosa —na verdade não tão nova, pois é conhecida desde o fim dos anos 1950 —, fica a pergunta: a resposta será nova campanha de vacinação em massa? Precisamos de vacinas novas para esta doença? Teremos uma pandemia 2.0?
As semelhanças entre a situação que emergiu em 2020 e a atual são apenas superficiais. Covid-19 é uma doença de transmissão respiratória, altamente contagiosa. A varíola símia, ou MPX, requer contato íntimo e prolongado para saltar de uma pessoa a outra. Este contato pode ser direto, pele a pele, ou indireto, através de toalhas, roupas de cama compartilhadas. Em termos de gravidade e letalidade, a MPX é uma doença mais branda, que em geral se resolve sozinha, sem necessidade de medicação ou hospitalização. Mas pode, em alguns casos, causar quadros mais graves. De qualquer modo produz dor e sofrimento que podem ser evitados com informação adequada, testagem, rastreamento e, também, por vacinação.
É importante ressaltar que não temos vacinas específicas para esta doença. Há vacinas para varíola humana, que em teoria devem trazer alguma proteção contra MPX, já que, são vírus muito parecidos. Experimento observacional conduzido na República Democrática do Congo em 1988 sugere uma boa proteção. Testes indiretos, que medem a produção de anticorpos após vacinação, também. São boas estimativas, mas não equivalem a resultados diretos de testes clínicos específicos.
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Existem dois tipos de vacina para varíola humana disponíveis: a antiga, feita com vírus vivo, e a mais recente, com vírus modificado e enfraquecido. A primeira apresenta mais restrições e efeitos adversos. A segunda é mais segura mas a produção é pequena, sendo comercializada por apenas uma empresa, na Dinamarca.
Portanto, vacinação em massa é, pelo menos no momento, inviável. O equilíbrio entre risco e benefício também não é comparável ao da Covid-19, já que se trata de uma doença bem menos grave. Logicamente, se a doença começar a se espalhar entre pessoas mais vulneráveis, como em imunossuprimidos, crianças e gestantes, a avaliação de risco deverá mudar. No momento atual, é possível fazer uma vacinação dirigida, para pessoas com maior probabilidade de contágio, ou que já foram expostas ao vírus MPX. Segundo o CDC, vacinas contra varíola podem ser eficazes se administradas até quatro dias após o contato com o vírus.
Alguns países já estão adotando esta conduta. Na cidade de Nova York, são considerados elegíveis para vacina homens que fazem sexo com homens, com parceiros múltiplos e/ou anônimos, e que tiveram parceiros múltiplos nos últimos 15 dias. No Canadá as regras são parecidas, mas incluem profissionais do sexo e de saúde.
No Reino Unido, consideram-se elegíveis profissionais de saúde, profissionais cuidando de pacientes de MPX, homens que fazem sexo com homens com múltiplos parceiros e contactantes expostos ao vírus.
Organizar este tipo de vacinação pode ser um desafio. É necessário informar sem estigmatizar —qualquer um pode pegar MPX — e uma boa estratégia de rastreamento de contactantes. É preciso falar abertamente de sexo, e alertar para o fato de que a presença de lesões na região genital e anal pode ser sinal de contágio. Informação adequada e vacinação dirigida serão as estratégias mais importantes para contenção da MPX. E já deveriam ter começado.
Fonte: Natalia Pasternak

