Viúva de massagista, “ex-torcedora” do Vasco mora dentro do estádio do Marcílio Dias
Conheça a história de Dona Sueli, que vive há mais de 30 anos no Estádio Dr Hercílio Luz; ela é vizinha de Elenir, viúva do ex-jogador Careca, que passou pelo Botafogo
Uma variedade de plantas na varanda e uma senhora sentada à frente do varal cheio de roupa a secar. Ela recebe uma amiga enquanto seleciona resultados de exames que precisa levar ao médico. Poderia ser o cenário de qualquer rua pacata de uma cidade de interior, mas chamou atenção por se passar em frente a uma casa dentro do Estádio Doutor Hercílio Luz – palco do jogo entre Marcílio Dias e Vasco, às 21h30 desta terça-feira, pela primeira fase da Copa do Brasil.
– Boa tarde, tudo bem? A senhora mora aqui?
Dona Sueli se assustou com a pergunta. Afinal, todo mundo que passa por ali sabe que aquela é sua casa. A amiga com quem proseava logo se despediu para que a catarinense de Lages pudesse contar sua história. A história de quem vive há mais de 30 anos dentro do estádio do Marcílio Dias.
Ao entrar no estádio, o torcedor se depara com a secretaria, onde tem um centro de memória dedicado à história e conquistas do clube. Seguindo tem o departamento médico e logo depois a casa da Sueli, que fica debaixo de uma das arquibancadas.
– Creio que este é o único estádio de um clube profissional que tem famílias morando aqui dentro – destacou um funcionário do Marcílio Dias.
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Sueli com Fernando Alécio, diretor do Centro de Memória, em frente à sua casa no Estádio Dr Hercílio Luz — Foto: Emanuelle Ribeiro/ge
O Maneca do Marcílio
Sueli foi casada com Manoel Theotonio Santana, que a “vida toda” foi massagista do clube de Itajaí. O Maneca do Marcílio, como era conhecido por todos, faleceu em 2017 em decorrência de complicações do Diabetes.
– Ele veio para cá e não tinha quase nada. Quando eu o conheci ele já morava aqui. Era massagista, mas fazia de tudo no estádio. Ele conhecia todos os cantos, chamavam ele pra tudo – contou Sueli ao ge.
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Sueli e Maneca — Foto: Emanuelle Ribeiro/ge
Maneca é natural de Itajaí e Sueli nasceu em Lages, mas foi morar na cidade do marido. Quando chegou a Itajaí, ela era viúva e mãe de três filhos. O endereço escolhido tinha o Estádio Dr Hercílio Luz do outro lado da rua. E o futuro esposo dentro dele.
– Fomos viver juntos e depois nos casamos. Fomos casados por 25 anos, mas moramos juntos por mais de 30. Ele foi um ótimo marido e padrasto, adorava meus filhos. Vivíamos muito bem – disse.
– A partir dele eu tenho muita amizade, até porque eu andava com ele para todo lado, porque ele não dirigia, eu que levava ele. Em todo lugar era “oi, Seu Maneca” – completou ela.
Depois que se aposentou do Marcílio Dias, Maneca continuou morando dentro do estádio, mas foi trabalhar no Itamirim Clube de Campo. Sua dedicação ao Marcílio rendeu homenagens. O departamento médico e uma das arquibancadas do Hercílio Luz levam o nome do massagista.
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Homenagem do Marcílio Dias para Maneca — Foto: Emanuelle Ribeiro/ge
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Departamento médico do Marcílio Dias leva o nome de Seu Maneca — Foto: Emanuelle Ribeiro/ge
A casa de Dona Sueli recebeu melhorias ao longo dos anos, com a ajuda de dirigentes que passaram pelo Marcílio Dias. A tinta da fachada, porém, não muda: azul e vermelho, cores do time. Ela pensou em sair dali algumas vezes para ir morar com os filhos, mas gosta do lar que criou ao lado do marido.
– Para eu sair precisaria fazer um acordo com o presidente, ter uma compensação, mas é difícil. Então vou ficando, mas eu gosto muito de morar aqui. Toda hora passa alguém, toma um café, e a porta está aberta para os que são amigos – explicou Dona Sueli.
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Seu Maneca foi massagista do Marcílio Dias por décadas — Foto: Emanuelle Ribeiro/ge
Uma “ex-torcedora” do Vasco
Sueli garante que não tem aborrecimento em dia de jogo. Mesmo com a janela da cozinha dando direto para o campo – hoje, ela não consegue mais ver o que se passa no gramado porque a diretoria colocou uma proteção para limitar a área: “Não gostei, porque agora faz muita sombra na minha cozinha”, alfinetou ela. Ainda assim, em pouco tempo deu para sentir a movimentação.
Para um jogo grande como o desta terça, contra o Vasco, o estádio precisa de uma estrutura melhor. Por isso, enquanto ouvíamos a história de Dona Sueli, passava um bocado de gente que estava trabalhando na preparação do evento. Além disso, o Marcílio Dias treinava logo ali atrás.
– Não tem barulho, não. Cercaram aqui, a bagunça ficou para outro lado. Mas contra o Vasco não sei, né? Vai encher, acho que vou até sair de casa amanhã à noite.
A frase é de alguém que quer ficar longe da agitação, mas nem sempre foi assim. Sueli revelou que o Vasco foi o único time para qual ela torceu. Nem mesmo o Marcílio Dias teve esse espaço, apesar de ser grata e amiga de funcionários e torcedores. Agora, aos 90 anos, ela não quer mais saber de futebol.
– Eu não torço para ninguém. Maneca morria pelo Marcílio e pelo Flamengo. Eu, quando era nova, torcia pelo Vasco, quando tinha uns 20 anos. Não sei porque, mas gostava. Tinha foto e autógrafo de jogadores. Morava em Blumenau e uma vez vim aqui em Itajaí para assistir a um jogo do Vasco – concluiu Sueli.
“Lene”, a vizinha
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Lene em sua casa dentro do Estádio Dr Hercílio Luz — Foto: Arquivo pessoal
Se não tem mais a companhia do marido há mais de seis anos, Sueli tem uma vizinha, Elenir. Lene, como é conhecida, foi criada no Hercílio Luz. É filha de Osny, que trabalhou como zelador e roupeiro do Marcílio Dias. Ele divide com Maneca o nome de uma das arquibancadas do estádio.
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Arquibancada do Hercílio Luz leva nomes de Osny, Nestor e Maneca — Foto: Emanuelle Ribeiro/ge
Lene foi casada com um ex-jogador do Marcílio, que também tem passagem pelo Botafogo: José Carlos, o Careca, falecido em 2016. Hoje, ela vive com a filha Morgana na casa acima de Sueli, onde morou com o marido depois que ele voltou do Rio de Janeiro.
– Morar em um estádio é bem inusitado. Até pela curiosidade das pessoas. A gente tem uma história aqui, que começou com meus avós maternos e passou pelo meu pai. Criamos vínculos e fizemos nossa história aqui. Meu pai saiu do Botafogo e veio para o Marcílio, quando os dois se conheceram – contou Morgana ao ge.
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Lene com o marido “Careca” — Foto: Arquivo pessoal
– Estamos muito acostumados, a gente sabe quando é gol do adversário e quando é gol do Marcílio, porque tudo estremece. A gente mora debaixo da arquibancada coberta. É surreal, cada jogo é uma sensação diferente. O grito da torcida ecoa dentro de casa e do coração. O dia que sairmos daqui vai ser difícil viver sem essa emoção. Estamos aqui torcendo pelo Marcílio, mas meus familiares no Rio torcem todos pelo Vasco. É um acontecimento para a cidade – acrescentou ela.
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Careca, ao lado de Jairzinho, em sua passagem pelo Botafogo — Foto: Arquivo pessoal
Além de Marcílio Dias e Botafogo, Careca jogou por clubes como Atlhetico-PR, Criciúma, Operário-MS e Vila Nova-GO. O meio-campista atuou na final do Campeonato Brasileiro de 1971, contra o Atlético-MG, no Maracanã. Ele morreu no dia 16 de dezembro de 2016, em Itajaí.
Fonte Por Emanuelle Ribeiro

