“Figurinha de Pobre”: conheça a história do álbum desenhado do Brasileirão
Rafael Caldeira, criador do perfil, conta que fazer as figurinhas com desenhos é uma terapia para si mesmo e para o filho diagnosticado com autismo
Por Luca Bíscaro — Rio de Janeiro
12/10/2022 Atualizado há 1 hora
O que torna o futebol o esporte mais popular do mundo? Muito além das quatro linhas, a resposta para tal pergunta está em histórias como a de Rafael Caldeira, de 38 anos. Para ele e a família, a febre do álbum da Copa gerou um hobby especial, que se tornou terapia em meio a uma rotina voltada à aprendizagem do filho diagnosticado com autismo.
O carioca do bairro de Vicente de Carvalho ganhou destaque nas redes sociais com o perfil “Figurinhas de Pobre”, no qual posta um álbum caseiro do Brasileirão. Na conta criada após ver a mesma ideia feita no álbum da Copa do Mundo, Rafael mostra as figurinhas com os jogadores que atuam no Brasil, desenhadas a lápis, em pequenos papéis recortados. O trabalho cuidadoso para completar os 520 espaços do álbum com a própria arte vem atraindo seguidores e repercutindo entre os jogadores.
Desenho é terapia – e futebol também
Rafael luta diariamente para conseguir dar a melhor educação possível ao filho Arthur, de cinco anos, que foi diagnosticado com autismo. O TEA (Transtorno do Espectro Autista) é caracterizado por uma alteração do neurodesenvolvimento, que afeta alguns comportamentos, como a comunicação e a interação social do indivíduo.
O carioca de 38 anos conta que Arthur necessita de 40 horas de terapia semanais. Porém, a maior parte delas é realizada por ele e sua mulher.
– A terapia já começa quando eu o pego no colégio, tudo que você pode fazer para transformar qualquer coisa simples em terapia, já ajuda. Ir mostrando o que são as coisas na rua, ajudando-o a raciocinar e entender tudo. No geral, é muita terapia, são 40 horas semanais, mas isso você não vai conseguir com plano de saúde, então acaba que eu e minha mulher temos que estudar e exercer essas atividades com ele também.
A terapia também tocou Rafael, que notou precisar de alguma atividade nova para relaxar enquanto estivesse em casa. Afinal, a rotina é pesada: promotor de vendas há anos, o morador da Zona Norte carioca sai para trabalhar às 5h e só volta após as 18h.
Ao ver um casal de estrangeiros postar nas redes sociais um álbum da Copa do Mundo completo, porém, com todas as figurinhas desenhadas manualmente, Rafael teve um estalo: por que não fazer o mesmo, mas com o álbum do Brasileirão?
A ideia, então, se uniu à vontade de ter um álbum completo como recordação do que viveu na infância, com a praticidade de poder completá-lo sem gastar o valor das figurinhas.
– Eu gosto muito de futebol e, quando eu era mais novo, costumava colecionar os álbuns, mas era difícil concluir. Quando veio esse ano, eu pensei em comprar o álbum da Copa, mas desisti pelo valor. Mas vi um casal de gringos fazendo a mesma coisa (figurinhas desenhadas), só que no álbum da Copa do Mundo. Então, conversando com meu primo, eu decidi que, como eu gosto muito do futebol brasileiro, ia completar um álbum do Brasileirão na mão com com os jogadores daqui.
A partir disso, Rafael percebeu que, além de um hobby para si mesmo, o álbum com figurinhas desenhadas poderia ajudar Arthur na compreensão do esporte. Isso porque uma das principais atividades em terapias de crianças autistas é a prática com desenhos.
– Como o Arthur tem autismo, acaba que ele não tem a sintonia fina de uma criança típica, ele tem dificuldades. O desenho em si é uma forma que ele tem para expressar um pouco do que ele sente, o que são letras, cores, números. Ajuda bastante exercitar o desenho com ele, é uma boa forma de terapia. Então, acabou que o álbum foi muito útil para a educação dele.
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Time do Palmeiras completo por figurinhas desenhadas de Rafael Caldeira — Foto: Rafael Caldeira
Processo artístico e a repercussão nas redes
Rafael conta que, em média, demora cerca de 10 minutos – ou menos – para finalizar cada figurinha. Mas, antes desse padrão se estruturar, foi feita uma estratégia artística para entender o design dos cromos.
– Eu comprei o álbum desse ano e um pacote de figurinhas para ver como que eram os modelos. Isso foi em junho ou julho deste ano. Para fazer as figurinhas, eu pego uma folha A4, recorto no tamanho da figurinha original e começo fazendo os moldes e as pinturas laterais. Depois disso, eu pego uma foto dos jogadores na internet, uma mais caricata mesmo, e tento reproduzir o mais parecido possível com lápis.
– Eu uso um lápis para fazer um esboço e uma caneta para fazer o contorno. Demora uns 10 minutos, eu vou pegando um time inteiro. Nos últimos que faltam, eu já vou montando a idade deles ou a altura, já faço uma pré-montagem – disse Rafael.
Depois de completar as páginas do Flamengo, seu time de coração, Rafael curtiu o resultado e decidiu criar a conta nas redes sociais para divulgar o trabalho. O primeiro jogador postado foi o ex-zagueiro rubro-negro Natan, que hoje atua no Bragantino.
– Acabou que logo quando eu fiz, comecei pelo Flamengo, mas fiz uma do Natan, zagueiro do Bragantino, que ficou bem legal. Então, eu decidi postar nas redes sociais sem nenhum grande objetivo. O legal foi que o Natan viu e curtiu a postagem, isso acabou me incentivando a fazer mais também. Hoje, eu posto uma pelo menos por dia.
Fonte: Luca Bíscaro — Rio de Janeiro
