Rússia realiza bombardeios maciços na Ucrânia em retaliação a ataque contra ponte na Crimeia
Moscou tomará medidas ‘severas’ de dimensão ‘correspondente ao nível de ameaça’ à Federação Russa, ameaçou Putin
Por O Globo e agências internacionais — Kiev
10/10/2022 03h20 Atualizado 10/10/2022
A Rússia lançou nesta segunda-feira uma série de bombardeios contra importantes cidades ucranianas, como o centro da capital Kiev, distante da frente de batalha. Com estruturas de energia, comunicações e instalações militares como alvos principais, os ataques mais amplos desde o início do conflito são uma retaliação à maciça explosão que derrubou no sábado um trecho da ponte estratégica que liga a Península da Crimeia ao território continental russo, incidente que o presidente Vladimir Putin classificou como um “ato terrorista” ucraniano.
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Os bombardeios russos mataram ao menos oito pessoas e feriram 36, números que os ucranianos afirmam poder aumentar, e derrubaram o abastecimento de energia e outros serviços essenciais pelo país. Em Kiev, foram os primeiros desde junho, atingindo um cruzamento movimento na hora do rush matinal. Foi também o ponto mais próximo da sede da Presidência da Ucrânia já bombardeado por Moscou desde que o conflito eclodiu, em 24 de fevereiro.
Ao todo, afirma a Presidência ucraniana, foram registrados bombardeios contra 12 regiões do país, entre eles em cidades como Lviv, no Oeste ucraniano, e Dniéper, no centro, além de regiões mais perto das frentes de guerra e bombardeadas com maior frequência — entre elas Zaporíjia e Mykolayiv, ambas no Sul. Também há relatos de explosões no porto de Odessa, no Mar Negro, e alarmes dispararam por todo o território ucraniano, exceto a Crimeia, ocupada pelos russos há oito anos.
Na abertura de uma reunião do seu Conselho de Segurança convocada no fim de semana, Putin disse que a Ucrânia “praticamente se pôs no mesmo patamar que formações internacionais terroristas” ao atacar a ponte na Crimeia. Em resposta, a Rússia fez um “ataque maciço com armas de amplo alcance e alta precisão” contra “infraestruturas de energia, comandos militares e comunicações” da Ucrânia:
Se tentativas de realizar ataques terroristas contra o nosso território continuarem, as medidas tomadas pela Rússia serão severas e sua dimensão corresponderá ao nível de ameaça à Federação Russa. Ninguém deve ter dúvidas sobre isso — afirmou Putin, que ainda no sábado havia anunciado a troca do comandante de sua ofensiva na Ucrânia, nomeando o general do Exército Sergei Surovikin, que o serviço de Inteligência militar de Kiev disse no fim de semana ser um especialista em guerra aérea.
Pouco após a fala de Putin, o Ministério da Defesa russo disse que os ataques “atingiram seu objetivo” e que “todos os alvos foram atingidos”.
Segundo o Estado-Maior ucraniano, foram disparados ao menos 77 mísseis entre 6h20 e 11h15 (0h20 e 5h15 no Brasil), com ataques aéreos vindos também da Bielorrússia, onde o regime é aliado de Moscou, da Crimeia e de barcos russos no Mar Negro, que supostamente cruzaram o espaço aéreo da Moldávia. Ao menos 41 mísseis foram abatidos pelos sistemas de defesa ucranianos.
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— É uma manhã dura. Estamos lidando com terroristas. Dezenas de mísseis, drones iranianos. Eles têm dois alvos: infraestruturas de energia pelo país (…) e o povo. O timing e os alvos foram escolhidos a dedo para causar o máximo de dano possível — disse Zelensky, em um pronunciamento por vídeo, no lado de fora da sede do governo. — Eles querem pânico e caos, querem destruir nosso sistema de energia. Eles não tem esperança.
A prefeitura de Kiev pediu a todos os moradores que fiquem em abrigos e que pessoas de fora evitem se dirigir até a cidade. Na internet, circulam imagens de estações de metrô cheias, como a de Vystavkovyi Tsentr, no centro da cidade, lotada de famílias em busca de proteção dos bombardeios, que ocorreram perto de uma universidade e das residências de embaixadores ocidentais e perto do parque Shevchenko, onde um parque infantil e uma ponte para pedestres foram danificados.
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Amplo ataque
Kiev sofreu bombardeios pesados no início da guerra, quando a estratégia russa era atingir e tomar as grandes cidades ucranianas, algo que se provou fracassado. Desde que Moscou recalculou sua rota, contudo, a capital ucraniana vivia em relativa calmaria.
Em Dniéper, cidade no centro da Ucrânia que é vista como relativo porto-seguro para quem foge da frente dos conflitos, os bombardeios “maciços” deixaram “mortos e feridos”, segundo o chefe militar local, Valentyn Reznichenko. De acordo com moradores, mais de dez explosões foram registradas durante a madrugada.
Em Kharkiv, no Leste, o prefeito disse que ataques às redes elétricas interromperam o abastecimento de energia, e o fornecimento de água também foi interrompido. O cenário é similar ao de Ivano-Frankivsk, no Sudoeste do país, onde poucos ataques foram vistos nos oito meses de guerra.
A agência de notícias ucraniana Uniam informou que vários mísseis atingiram Dnipro, um importante centro industrial na região da capital do país. A agência também informou que dois ataques atingiram Zhytomyr, uma cidade a oeste de Kiev, e que explosões ocorreram em Ternopil, Khmelnytskyi e Lviv, no Oeste.
Uma explosão atingiu um parque perto do distrito governamental, onde o Parlamento e o escritório presidencial estão localizados. O local tem um simbolismo especial, também, por ser a localização de um monumento dedicado à amizade entre as nações russa e ucraniana, o chamado Arco da Amizade do Povo.
No domingo, um ataque com mísseis russos na cidade de Zaporíjia atingiu um prédio de apartamentos e várias casas particulares, matando pelo menos 13 pessoas e ferindo 60, disseram autoridades ucranianas.
Bielorrússia
A Bielorrússia, vizinha do Norte da Ucrânia, montará um agrupamento de tropas junto com a Rússia, sua aliada, disse o presidente Aleksandr G. Lukashenko.
O líder bielorrusso não especificou o tamanho ou o objetivo do agrupamento, mas afirmou que o Ocidente queria “atrair a Bielorrússia para uma guerra” e que a Otan estava considerando “uma possível agressão contra nosso país”.
As informações circularam via mídia estatal bielorrussa. A Rússia usou sua parceira como palco para a invasão à Ucrânia.
Fonte: O Globo e agências internacionais — Kiev
